Em 1928, o presidente da Federação Internacional de Futebol Associado-FIFA, o francês Jules Rimet, encomendou a Abel Lafleur, seu patrício e artesão assistente no Museu de Belas Artes de Rodez, um troféu para ser entregue (com posse transitória, de quatro em quatro temporadas) aos campeões mundiais, ficando, em definitivo, com quem o conquistasse por três vezes.
Lafleur teria gasto 90 dias para confeccionar Vitória de Samotrácia, escultura representativa da deusa grega do triunfo – Nice -, mulher alada que ficou conhecida por Copa do Mundo – taça dourada, pesando quatro quilos e medindo 30 centímetros de altura. Durante a II Guerra Mundial – 1939 a 1945 -, o ditador italiano Benito Mussolini ordenou a sua apreensão, mas o cartola Ottorino Barazi a escondeu, em uma caixa de sapatos, debaixo de uma cama, e evitou que fosse derretida – o que não evitou a Confederação Brasileira de Futebol-CF, em 1983, quando bandidos a surrupiaram e a derreteram.
Bem antes, em 1966, o caneco desaparecera, na inglesa Londres, que sediaria o Mundial, e fora encontrada por um cachorrinho – história e tanto. Desejada por ditadores, ladrões e atletas, a estatueta escapou de ar, também pelas mãos de um censor da ditadura militar brasileira-1964/1985.
Voltemos a 1950. Por ali, o Brasil sediava a IV Copa do Mundo e era favoritíssimo ao título de campeão, principalmente, por ter sido perfeito nos antepenúltimo e penúltimo jogos, contra Suécia e Espanha, marcando 13 gols e levando só dois gols.
O que deveria ser o jogo da consagração foi marcado par 16 de julho, no Maracanã, diante do Uruguai, que quase não disputa a Copa, por dificuldades financeiras. Nem médico trouxe. O Brasil fez 1 x 0, levou o empate e, ainda, teria título, se mantivesse o placar, por 13 minutos. Como não se intuía que os uruguaios virassem a conta, Jules Rimet deixou a tribuna de honra do Maracanã, com a taça nas mãos, para ir ao gramado entrega-la ao capitão brasileiro Augusto da Costa – terminou entregando-a ao correspondente uruguaio Obdúio Varela, ante uma sua inacreditável surpresa.
Depois de ter escapado de tantos escroques, a Deusa Alada escapara de ser carregada pelo lateral-direito do Vasco da Gama, o capitão da Seleção Brasileira, integrante da temível polícia carioca. Vindo para Brasília, pelos inícios das década-1960, Augusto da Costa tornou-se membro da Censura Federal dos governos da Revolução de 31 de Março. Era quem consolidava pareceres para escrever um documento a ser assinado pelo chefão Romero do Lago, que prestava satisfações só ao ministro da Justiça, Armando Falcão.
Isso significa que era a turma do Augusto da Costa que decidia, por exemplo, quais filmes as crianças poderiam ver nos cinemas. Eram 17 vigorosos zagueiros do moral e dos bons costumes, e que vigiavam até bandidos dos desenhos animados. Pouquíssimas pessoas tinham tanto patota do Augusto chegou até a mutilar o premiado filme O Silêncio, do sueco Ingmar Bergman (lançado em 1963), classificando-o por “vazio, sem nenhuma mensagem”.
Em 1950, foi péssimo para o futebol brasileiro perder a Copa do Mundo, dentro de casa, mas bom para a da Deusa Alada – via chute do uruguaio Alcides Ghiggia -, não ter sido carregada por mãos de censor de uma ditadura militar que censurava até inocentes revistinhas infantis do Mickey e do Pato Donald.